Tempo mental


É bom estabelecer um limite de tempo mental. Ouvi a frase de uma amiga que, contando-me sobre o desejo de ser correspondida pelo suposto pretendente a namorado, o qual estava com aquela dúvida tipicamente masculina do “não sei se caso ou compro uma bicicleta”, viu-se na necessidade de estipular um prazo mental, logicamente sem ele saber, para resolver a situação. Sim, eu concordo, coisas do coração não se solucionam de uma hora para outra, com data de validade, como se fosse caixa de remédio, mas, tenhamos a santa paciência, quem espera demais nem sempre alcança, e, normalmente, cansa, isso sim. E, bem, estamos falando do sexo masculino. Homem é decidido na prateleira de eletrônicos do supermercado, na hora de trocar o carro ou de comprar carne e cerveja para o churrasco. Quando o assunto é relacionamento, via de regra, danou-se. A mulher ganha disparado em decidir. Assim, mãos à obra. Estabelecer o tal limite temporal pode ser proveitoso se a outra parte não sai de cima do muro. E, ei, se o mocinho já estiver quase pulando para lado de lá, por favor, trate de encurtar o prazo. Toda a dor de amor machuca, isso é fato, mas também não precisa ficar em regime de clausura, trancafiada em casa, sem um sorriso no rosto, por meses a fio. Isso já é tortura. Passou da espera saudável. E se ele já estiver em dúvida, não tenha dúvidas, vendo você sem ação é que vai abandonar o barco (o seu no caso) sem pestanejar. Se você demonstrou que está cheia de amor para dar, mas ele não sabe se vai ou se fica, decida por ele. Cada um tem um tempo emocional, e o seu não deve depender daquele que ele tem. Crie um tempo para o seu coração. Ele é sábio. Enquanto não dói é porque sabe que a espera pode ser válida. Agora, se está pedindo um help, talvez seja hora de parar de agir no automático e pensar. Pode parecer difícil no começo, mas lembre que se a vida não parou do lado de lá, não deve parar do seu também. Fixe limites de prazos mentais para a sua alma florir. Em vez de ficar esperando enquanto ele tenta decidir, compre você uma bicicleta nova e vá logo ser feliz. Se ele quiser, vai acelerar o passo para alcançar o seu tempo de novo. Sim, fique tranqüila, os homens, quando querem, embora precisando de um empurrãozinho, também decidem. :)

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Não sei se a minha amiga comprou a bicicleta nova. Mas está feliz da vida, amando e sendo amada. E, segundo ela, tudo no seu devido tempo.

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"Deixamos de sentir o que a gente sentia
que trazia cor ao nosso dia a dia
Deixamos de dizer o que a gente dizia
Deixamos de levar em conta a alegria
Deixamos escapar por entre nossos dedos
A chance de manter unidas as nossas vidas
Amanhã ou depois, tanto faz se depois for nunca mais..."


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Desejos de um final de semana sem nada para depois e com tudo por todo o tempo do mundo! :)

Previsões ciganas


Centro de Porto Alegre. Calor do sol beirando os trinta graus. Meu corpo pedia água tônica gelada (hoje eu gosto de coisas que aos meus dezoito anos detestava) e meus pés queriam descanso. No meio do caminho não havia pedras, mas pombos, como é de se esperar nas redondezas do Mercado Público, e, entre eles, uma cigana que me deu ótimas notícias em um início de tarde de final de semana de início de mês: "moça bonita (e só aí ela já me fez ganhar o dia) a linha da vida começa e termina no teu coração. A tua vai ser longa e feliz". Opa, meu superego cutucou, parece final de novela. Tri perfeitinho. No complemento das palavras daquela senhora com vestido colorido e tilintantes pulseiras nos braços veio o encanto do momento: "tira os pés do chão e voa, menininha", disse ela. Ri, pensando: tolice. Não se sabe do futuro de ninguém pela palma da mão. Ela se despediu, com um olhar e uma serenidade que ficaram na minha memória. Dois passos à frente eu senti uma leveza de espírito inexplicável, que durou até o final do dia. Quem sabe ainda esteja aqui, em um pedacinho do coração. Na simplicidade do gesto de uma cigana, entendi que a vida acontece em ciclos. Na palma da mão está a linha. No coração, o permitir-se voar. :)

Arte: Rose Garden, do Paul Klee. E letra da Zélia Duncan para inspirar o início desta noite...

Easy,
fique bem easy, fique sem nem razão
Da superfície
livre
Fique sim, livre
Fique bem com razão ou não, aterrise


Alma,
daqui do lado de fora
Nenhuma forma de trauma
sobrevive

Abra a sua válvula agora
A sua cápsula alma
Flutua na
superfície lisa, que me alisa, seu suor
O sal que sai do sol, da superfície
Simples, devagar, simples,
bem de leve a alma ja pousou, na superfície

ღ♥ஜ ღ♥ஜ ღ♥ஜ ღ♥ஜ

Tem filosofia aí?



Recordo-me de há algum tempo ter lido um artigo do Luc Ferry sobre como a filosofia pode ser um meio eficiente de auto-conhecimento. Adorei a tese e me senti, de certo modo, aliviada de ver naquelas linhas palavras de um conhecedor sobre o assunto, já que muitas pessoas rotulam aqueles que gostam dessa disciplina como chatos sem outras alternativas mais emocionantes com as quais se ocupar. Certo, divagações, em algumas ocasiões, têm de ser curtas para não se tornarem inoportunas e maçantes, mas procurar entender o porquê das coisas de uma forma filosófica pode ser bonito e proveitoso. Faz bem para a alma e, arranho, pode ser bem mais emocionante ler Kant que assistir a um roteiro de filme americano do tipo suspense policial. Eu encontrei, por vezes, respostas a muitas dúvidas nos ensinamentos de Sêneca, Schopenhauer, Nietzsche (lógico!) e tantos outros. A filosofia é o me que sustenta. É ela que me faz livre, forte, intensa. Aos que também gostam, fica aqui a dica do livro As Consolações da Filosofia, do Alain de Botton, segundo o qual para cada mal da vida existe um remédio filosófico. Fico hoje com Sêneca. O motivo da escolha? Quem sabe acreditar que para todo o final do mês de agosto, escolhido como o tenebroso do calendário, existe um lindo início de primavera.

"Para nos acalmarmos em uma rua movimentada, devemos confiar que as pessoas que provocam barulhos nada sabem a nosso respeito. Devemos erguer uma barreira entre o barulho exterior e a sensação interior de que somos merecedores de punições. Não devemos transportar interpretações pessimistas das motivações alheias para cenários onde não há lugar para elas. A partir daí, o barulho jamais será agradável, mas ele não precisa nos enfurecer tanto: Deixemos o caos reinar por toda parte, desde que não perturbe nosso equilíbrio interior."


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Luc Ferry

Nascido em Paris em 1951, Luc Ferry é filósofo e um dos principais defensores do Humanismo Secular - visão de mundo que se contrapõe à religião, por conta de seu compromisso com o uso da razão crítica em lugar da fé, na busca de respostas para as questões humanas mais importantes. Foi ministro da Educação na França de 2002 a 2004. Com Aprender a Viver, venceu o prêmio Aujourd'hui 2006, um dos mais conceituados de não-ficção contemporânea da França.

**Em tempo: E as tulipas? Estão aqui porque são bonitas (e elas nunca parecem tristes, embora possam estar). E é assim que a vida deve ser. Linda, na medida da felicidade de cada um. :)