Prólogo de outono

Edoardo Pasero


Qual o problema? Nunca gostei de regras, a não ser das que podem ser quebradas. E, bem lembrado, todas podem. Por isso, não me segure. E se eu bater o carro, sozinha, numa curva, a mais de cem por hora, perto da praia e a dois minutos de casa, nem pense em dizer que a culpa foi do tempo, da virada dos ventos, da rotina ou de qualquer coisa parecida. Você já me conhece e sabe que eu não gosto de desculpas e de todas essas tolices inventadas para manter padrões convenientes e comportados. Vontade é o que me tem. De coisas, pessoas, atos, poemas, cores, vozes, versos. Vontade de loucuras, que seja! À vontade. É assim que eu levo a vida. Se quiser me acompanhar, é bom pegar no tranco logo, me amar com gosto, e gozo, no sofá de veludo da sala, e me guardar em você enquanto é tempo. Antes que o outono acabe. Ou que eu me perca, de novo, por aí.

Fraude

Frederick Leighton


Eu sou puro sentimentalismo barato. De bar. Vã filosofia em gotas. Gotas de orvalho em manhãs de inverno. Essa coisa toda. Romântica e desmesurada. Em três linhas breves. Uma fraude.




Sutilmente

Vanessa Ho

"E quando eu estiver triste
Simplesmente me abrace
E quando eu estiver louco
Subitamente se afaste
E quando eu estiver bobo
Sutilmente disfarce
Mas quando eu estiver morto
Suplico que não me mate, não
Dentro de ti, dentro de ti
Mesmo que o mundo acabe, enfim
Dentro de tudo que cabe em ti."

[Nando Reis e Samuel Rosa]





Em tempo: precisei roubar palavras de outro lugar. hoje elas me faltam para as coisas bonitas da alma.

Jardim de Samos


Vou para Samos. Ainda hoje arrumo a bagagem. Parto na madrugada. Cansei de trabalhar à toa. E cansei, também, das suas histórias. Vou me mandar. Você, se quiser, se arrume por aí. Case com a estagiária. Plante árvores. Tenha filhos. E fique com o quarto, os quadros, as coisas todas do baú de vime do qual você tanto gosta. Quero apenas o tecido das cortinas. Aquelas sobras que guardei no verão passado, quando você tirou férias e me deixou em casa. Sozinha. Vou fazer vestidos novos. Coloridos. Curtos e em tomara-que-caia. Tenho hoje o corpo mais curvilíneo do que tinha nos meus vinte anos, quando nos conhecemos. Acho que você não percebeu o quanto eu mudei. Nem o meu corpo torneado, nem as palavras acumuladas em anos. Agora é tarde. Letras maiúsculas e garrafais, em batom vermelho, no espelho do banheiro: DIVIRTA-SE. NÃO VOLTO MAIS.