Fraude

Frederick Leighton


Eu sou puro sentimentalismo barato. De bar. Vã filosofia em gotas. Gotas de orvalho em manhãs de inverno. Essa coisa toda. Romântica e desmesurada. Em três linhas breves. Uma fraude.




Sutilmente

Vanessa Ho

"E quando eu estiver triste
Simplesmente me abrace
E quando eu estiver louco
Subitamente se afaste
E quando eu estiver bobo
Sutilmente disfarce
Mas quando eu estiver morto
Suplico que não me mate, não
Dentro de ti, dentro de ti
Mesmo que o mundo acabe, enfim
Dentro de tudo que cabe em ti."

[Nando Reis e Samuel Rosa]





Em tempo: precisei roubar palavras de outro lugar. hoje elas me faltam para as coisas bonitas da alma.

Jardim de Samos


Vou para Samos. Ainda hoje arrumo a bagagem. Parto na madrugada. Cansei de trabalhar à toa. E cansei, também, das suas histórias. Vou me mandar. Você, se quiser, se arrume por aí. Case com a estagiária. Plante árvores. Tenha filhos. E fique com o quarto, os quadros, as coisas todas do baú de vime do qual você tanto gosta. Quero apenas o tecido das cortinas. Aquelas sobras que guardei no verão passado, quando você tirou férias e me deixou em casa. Sozinha. Vou fazer vestidos novos. Coloridos. Curtos e em tomara-que-caia. Tenho hoje o corpo mais curvilíneo do que tinha nos meus vinte anos, quando nos conhecemos. Acho que você não percebeu o quanto eu mudei. Nem o meu corpo torneado, nem as palavras acumuladas em anos. Agora é tarde. Letras maiúsculas e garrafais, em batom vermelho, no espelho do banheiro: DIVIRTA-SE. NÃO VOLTO MAIS.


A outra

Edoardo Pasero


Ela ficava ali, assim, de canto, na espreita, disfarçada, latente. E eu, menina assustada, atrás da porta, escondida. Num dia, chegou bem perto, sem rodeios, direta: — Qual é a tua, hein, garotinha mimada? — disse ela com voz atrevida. Daquele dia em diante, troquei de roupa, de marido, de trabalho. E comecei a ser feliz. Outra em mim. Deixei. E ela ficou. Minha despedida dos restos de tudo o que sobrava. E não fazia falta.