Nonsense

Vicky Brago-Mitchell

E, quando me encontrar de novo, me abrace como em Shalott. Com poemas de Shakespeare. Ou, entre as minhas pernas, Bukowski. Preciso ir para longe. Júpiter ou Marte. Em camisas de Vênus. Nas ruas de Xangai. Ou uma ilha em blue, com som de blues, no Havaí. Em meia hora. Agora. Peça um chá. Em francês. Não se despeça ainda. Tire a minha roupa. Olhe a minha alma. Não demore. Ou, demorando, faça com jeito. Me [re]conheça. E se, ao acaso, por outros acasos, eu tentar fugir, não me solte. Você sabe, não foi fácil voltar aqui.

Conjugações

Gustav Klimt

Era ali, entre um abraço e outro, que eu queria ficar. Sem descompassos, entrelinhas, dissabores. Onde a frase se completa com palavras curtas, breves, e de cor leve. Em acordes, sonata ao luar e coisas afins. Por que esse é o momento de amar. Nem antes, nem depois. É ali, quando o fato, por si, basta. E diz o que é. Sem voltas, portas - ou palavras - entreabertas. Sem frestas. No espaço de não precisar argumentar nada [no nada de tudo,


e no tempo perfeito que é o amar].

Grávida

Jennifer Shaw


Estou grávida. Com vontade de parir. Ou, quem sabe, de partir. Por um instante. Ou para sempre. Posso estar grávida de mim, das coisas minhas, da minha vida toda. Grávida. E só. De solistência, solitude, ou solidão. Eu. Grávida dessas idéias que concebemos, sem saber muito bem quando, ou como, e que, tal hora, precisamos mostrar ao mundo. De algum jeito. Às claras. Ou em pausas. Mas, sim, grávida. De tudo o que eu ainda guardo em mim. A sete chaves, aos nove meses, e em três ou quatro vidas. Grávida. De gravidez ou de força de gravidade. Gravitacional. Tanto faz. Importa é que eu suporte a dor pelo gosto da criação. Basta é que se complete o ciclo. Em luas, ritos, ou poesia. Outra vez nasce, em mim, a vida.

Coisas perdidas em tempos não distantes

Raymond Gehman


Você deveria escrever mais cartas para mim, Juno. As suas ausências prolongadas me fazem sentir no meio do mar. Uma náufraga de amar, por assim dizer. Mas eu bem sei que você tem as suas ocupações, o seu dia cheio de trabalhos e a sua corrida vida de compromissos. Mas você lembra quando você me pegava pela mão, do alto - baixinho - dos meus cinco anos de idade? Eu virava gigante em pensamento. E te abraçava com todo o amor do mundo. E o mundo era ter alguém como você ali do meu lado. Tudo bem, eu sei que fui a menina mimada da casa, cheia de cuidados, protegida de todos os lados. Mas hoje você faz a mesma coisa, não faz? Eu sei que faz. E sei porque reconheço o brilho nos teus olhos quando a pequena vem ao teu encontro e te pede afago. Confessa: não é a melhor sensação do mundo? Enfim, Juno, o tempo passou. E hoje somos grandes. E aconteceu o que nunca se quer. Eu e você deixamos os abraços ficarem cheios de formalidades e de coisas sem graça. Trocamos as mãos dadas pela troca de presentes em ocasiões formais. Esquecemos - ou fazemos de conta que esquecemos - os laços, as risadas soltas, a cumplicidade das travessuras, o gosto leve das coisas da infância. De onde vem a culpa, se é que ela existe? Confesso que não sei. Talvez tenha sido por essas coisas da vida, que, vez ou outra, não entendemos e que nos fazem ficar aborrecidos. Mas, em tempo - e para falar das coisas que estão em nós sempre é tempo - saiba que você ainda é o herói de todas as minhas estórias animadas, ainda é o meu sentimento mais puro de afeto. Ainda é, apesar de todas as outras coisas, um pouco de mim.


Ana

[e Ana é irmã de Juno]